A guerra na Ucrânia — “A Alemanha remilitarizada está a jogar a longo prazo na Ucrânia” , por M.K. Bhadrakumar

Seleção e tradução de Francisco Tavares

10 min de leitura

A Alemanha remilitarizada está a jogar a longo prazo na Ucrânia

Por M.K. Bhadrakumar

Publicado por  em 13 de Julho de 2023 (ver aqui)

Publicação original em  (ver aqui)

 

Há sempre algo de instável numa Grande Potência deficiente quando surge uma intensidade totalmente nova nas circunstâncias políticas, económicas e históricas, escreve M.K. Bhadrakumar.

 

O ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, e a embaixadora dos EUA na Alemanha, Amy Gutmann, à direita, cumprimentam o secretário de Defesa dos EUA, Lloyd Austin, em frente ao Ministério da Defesa alemão em Berlim, em 19 de janeiro. (DoD, Jack Sanders)

 

A hipótese de que o eixo anglo-saxónico é fundamental para a guerra por procuração na Ucrânia contra a Rússia é apenas parcialmente verdadeira. A Alemanha é, de facto, o segundo maior fornecedor de armas à Ucrânia, a seguir aos Estados Unidos.

O chanceler Olaf Scholz prometeu um novo pacote de armamento no valor de 700 milhões de euros, incluindo mais tanques, munições e sistemas de defesa aérea Patriot, na cimeira da NATO em Vilnius, colocando Berlim, como ele disse, na vanguarda do apoio militar à Ucrânia.

O ministro alemão da Defesa, Boris Pistorius, sublinhou: “Ao fazer isto, estamos a contribuir significativamente para reforçar o poder de resistência da Ucrânia”. No entanto, a pantomima que se está a desenrolar pode ter vários motivos.

Fundamentalmente, a motivação da Alemanha tem a ver com a derrota esmagadora do Exército Vermelho e tem pouco a ver com a Ucrânia enquanto tal.

A crise ucraniana criou o contexto para acelerar a militarização da Alemanha. Entretanto, os sentimentos revanchistas estão a ganhar força e existe um “consenso bipartidário” entre os principais partidos centristas alemães – CDU, SPD e Partido Verde – a este respeito.

Numa entrevista concedida no passado fim de semana, Roderich Kiesewetter, o principal especialista em assuntos externos e de defesa da CDU (um ex-coronel que dirigiu a Associação de Reservistas da Bundeswehr de 2011 a 2016), sugeriu que, se as condições da situação na Ucrânia o justificassem, a Organização do Tratado do Atlântico Norte deveria considerar a possibilidade de cortar “Kaliningrado das linhas de abastecimento russas. Estamos a ver como Putin reage quando está sob pressão”.

Roderich Kiesewetter em 2022 (Fundação Heinrich Böll, Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0)

 

Berlim ainda se ressente da rendição da antiga cidade prussiana de Königsberg [atual Kaliningrado] em abril de 1945.

Estaline ordenou a 1,5 milhões de soldados soviéticos, apoiados por vários milhares de tanques e aviões, que atacassem as divisões Panzer nazis profundamente entrincheiradas em Königsberg. A tomada da fortaleza fortemente fortificada de Königsberg pelo exército soviético foi celebrada em Moscovo com uma salva de artilharia de 324 canhões, disparando 24 obuses cada.

 

Nada está esquecido em Berlim

Evidentemente, as observações de Kiesewetter mostram que nada é esquecido ou perdoado em Berlim, ainda que decorridas oito décadas. Assim, a Alemanha é o aliado mais próximo da administração Biden na guerra contra a Rússia.

O governo alemão declarou a sua compreensão pela decisão controversa da administração Biden de fornecer munições de fragmentação à Ucrânia. O porta-voz do governo comentou em Berlim: “Estamos certos de que os nossos amigos norte-americanos não tomaram a sua decisão de ânimo leve, para fornecer este tipo de munições”.

O Presidente Frank-Walter Steinmeier observou: “Na situação atual, não se deve obstruir os EUA”. De facto, Kiesewetter, figura de topo da CDU, sugeriu, numa entrevista ao diário taz, afiliado ao Partido Verde, que deveriam ser dadas à Ucrânia “garantias e, se necessário, até assistência nuclear, como passo intermédio para a adesão à NATO”.

Coincidindo com a cimeira da NATO em Vilnius, na terça e quarta-feira, a Rheinmetall, a grande empresa alemã de fabrico de armas com 135 anos, revelou que vai abrir uma fábrica de veículos blindados no oeste da Ucrânia, num local não revelado, nas próximas 12 semanas.

Para começar, serão construídos e reparados veículos blindados de transporte de pessoal Fuchs alemães, havendo planos para o fabrico de munições e, possivelmente, até de sistemas de defesa aérea e tanques.

O diretor executivo da Rheinmetall disse à CNN na segunda-feira que, tal como outras fábricas de armamento ucranianas, a nova fábrica poderia ser protegida de ataques aéreos russos. A Alemanha mais do que duplicou a dotação de 2 mil milhões de euros para a modernização das forças armadas da Ucrânia em 2022. A verba ascende agora a cerca de 5,4 mil milhões de euros, com planos para aumentar para 10,5 mil milhões de euros.

 

Rivalizando com a Polónia

Será que tudo isto tem a ver com a Rússia? A Alemanha não pode ignorar que a Ucrânia não tem qualquer esperança de derrotar militarmente a Rússia. A Alemanha está a jogar a longo prazo. Está a criar equidade na Ucrânia ocidental, onde o seu adversário não é a Rússia, mas sim a Polónia.

Desde que o exército czarista avançou para a Galícia [n.t. território que se divide atualmente entre a Polónia e a Ucrânia] em 1914, a Rússia tem tido uma história difícil com os nacionalistas ucranianos. Se a atual guerra na Ucrânia se estender à Ucrânia Ocidental, não será uma escolha da Rússia, mas sim uma necessidade que lhe será imposta.

A vitória soviética na Ucrânia, em outubro de 1944, a ocupação da Europa Oriental pelo Exército Vermelho e a diplomacia dos Aliados resultaram numa redefinição das fronteiras ocidentais da Polónia com a Alemanha e da Ucrânia com a Polónia.

Em termos simples, com a compensação dos territórios alemães a oeste, a Polónia concordou com a cessão da Volínia e da Galicia na Ucrânia ocidental; uma troca mútua de populações criou, pela primeira vez em séculos, uma fronteira étnica e política clara entre a Polónia e a Ucrânia.

Território do Reich alemão perdido para a Polónia e a União Soviética após a Segunda Guerra Mundial, a amarelo e laranja. Desde a dissolução da URSS, estas terras fazem agora parte da Polónia e da Rússia. (Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0)

 

É perfeitamente concebível que a atual guerra na Ucrânia altere radicalmente as fronteiras territoriais da Ucrânia a leste e a sul. Possivelmente, pode também reabrir o acordo pós-Segunda Guerra Mundial no que respeita à Ucrânia ocidental.

A Rússia tem avisado repetidamente que a Polónia pretende reverter a cessão da Volínia e da Galicia na Ucrânia ocidental. Uma tal reviravolta nos acontecimentos irá certamente trazer para primeiro plano a questão dos territórios alemães que hoje fazem parte da Polónia.

Talvez tenha sido em antecipação da turbulência que se avizinha que, em outubro passado, oito meses após o início da intervenção russa em fevereiro de 2022, Varsóvia exigiu a Berlim reparações da Segunda Guerra Mundial – uma questão que a Alemanha diz ter sido resolvida em 1990 – no valor de 1,3 milhões de milhões de euros.

Nos termos da Conferência de Potsdam de 1945, os “antigos territórios orientais da Alemanha”, que compreendiam quase um quarto (23,8%) da República de Weimar, foram maioritariamente cedidos à Polónia. O restante, constituído pelo norte da Prússia Oriental, incluindo a cidade alemã de Königsberg (rebaptizada Kaliningrado), foi atribuído à União Soviética.

Königsberg – atual Kaliningrado – em 1938. (HerkusMonte, Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0)

 

Não nos enganemos quanto à importância da fronteira oriental para a cultura e a política alemãs. Na verdade, há sempre algo de instável numa Grande Potência “deficiente” quando surge uma intensidade totalmente nova nas circunstâncias políticas, económicas e históricas, que leva os detentores do poder a transformar ideias em realidade, e os discursos revanchistas e imperialistas que estavam silenciosa mas firmemente a fluir abaixo da superfície dos esforços diplomáticos cuidadosamente considerados começam a sondar a expansão pan-nacionalista.

Em retrospetiva, não deve ser esquecido o papel diabólico da Alemanha – em particular do então ministro dos Negócios Estrangeiros e atual Presidente Steinmeier – no alinhamento da Alemanha com os elementos neonazis durante a mudança de regime em Kiev, em 2014, e a subsequente perfídia alemã na implementação do Acordo de Minsk (“fórmula Steinmeier”), tal como admitido recentemente, em Fevereiro, pela antiga Chanceler Angela Merkel.

12 de fevereiro de 2015: O Presidente russo, Vladimir Putin, o Presidente francês, François Hollande, a Presidente alemã, Angela Merkel, e o Presidente ucraniano, Petro Poroshenko, nas conversações do formato Normandia em Minsk, Bielorrússia. (Kremlin)

 

Basta dizer que, mesmo quando a Rússia está a ganhar a guerra na Ucrânia, a preocupação dos responsáveis pela política externa alemã volta a ser a necessidade de redefinir o que é alemão.

Assim, a guerra na Ucrânia é apenas um meio para atingir um fim. Relatórios recentes sugerem que Berlim pode estar a avançar, finalmente, para satisfazer o pedido pendente da Ucrânia de mísseis de cruzeiro Taurus com um alcance superior a 500 km e uma “cabeça de guerra multi-efeito” única que pode ser um fator de mudança na dinâmica de combate no campo de batalha e criar os pré-requisitos para a vitória.

De igual modo, os soldados alemães já constituem cerca de metade do grupo de combate da NATO já presente na Lituânia. O Ministro da Defesa Boris Pistorius disse há duas semanas, durante uma visita a Vilnius, que a Alemanha está a preparar as infra-estruturas para colocar permanentemente 4.000 soldados (“uma brigada robusta”) na Lituânia, de modo a ter a capacidade de manter a flexibilidade militar no flanco oriental. A decisão tem o apoio tanto da coligação governamental alemã como da sua principal oposição.

O especialista em política externa da CDU e membro do Bundestag, Kiesewetter, classificou a ideia de estabelecer uma base alemã nos países bálticos como uma “decisão razoável e fiável”.

Na verdade, houve tentativas passadas, em termos históricos, de criar um domínio alemão no Báltico, com base em reivindicações revisionistas em relação aos novos Estados da Estónia, Letónia e Lituânia, onde os colonos alemães se tinham estabelecido já nos séculos XII e XIII.

 

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O autor: M.K. Bhadrakumar, antigo embaixador da Índia, analista político. Durante 3 décadas a sua carreira diplomática foi dedicada a missões nos territórios da antiga União Soviética, Paquistão, Irão e Turquia. Escreve principalmente sobre a política externa indiana e os assuntos do Médio Oriente, Eurásia, Ásia Central, Ásia do Sul e Ásia-Pacífico. O blog Indian Punchline, segundo o autor, reflecte as marcas de um humanista contra o pano de fundo do “século asiático”, sublinhando isto porque vivemos em tempos difíceis, especialmente na Índia, com uma polarização tão aguda nos discursos – “Ou estás connosco ou contra nós”.

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